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A jornada sem destino

Caminhando no parque municipal

26/01/2021 15h39 Atualizada há 4 dias
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Por: mario vicenti
A jornada sem destino

O que uma insólita caminhada no parque pode nos ensinar sobre a vida.

 

A minha caminhada matutina de sábado, por cerca de dez quilômetros na pista do maior parque ecológico urbano do Sul do Brasil, foi reconfortante, por conta do clima de início de primavera e de um aprendizado único na hora e meia que passei ali. Fiquei totalmente absorto, vivendo um momento sublime sem desviar os pensamentos do tempo presente, embora tivesse várias preocupações, como fazer uma mudança radical dentro de 30 dias.

Hoje, moro na minha terra Natal, Cascavel no Paraná e trabalho em outra cidade a 50 quilômetros de distância. Em breve, me mudo para o Norte do Estado por questões de relacionamento pessoal, profissional e uma situação familiar específica da minha mãe que tem 83 anos. Esta, é uma etapa da vida que me exige muito discernimento e paciência. Confesso que já calculei os riscos e quero pagar para ver. É claro que existe os prós e contras, porém, prefiro sempre apostar nas possibilidades do novo, característica adquirida na infância por causa do estilo de vida dos meus pais. Ali, as mudanças eram tantas que resolvi sair de casa no início da minha adolescência. Mas, até o momento desta importante decisão não tive stress, ainda que alguma energia burocrática negativa e pequenas interferências humanas tentaram me tirar a paz de espírito, sigo convicto nesse propósito da mudança.

Aprendi nesses 57 anos de vida que não vale a pena sofrer por antecipação. Há muito, resolvi envelhecer com saúde e muita paz de espírito. Não que eu fuja de problemas, pelo contrário, hoje me posiciono mais assertivamente diante da vida e das pessoas, mas tudo tem seu tempo. Por isso, essa caminhada foi além do exercício físico. É que nesse dia eu optei por não levar o fone de ouvido, então, deixei minhas músicas em silêncio no celular dentro do carro. De fato, a decisão foi tomada quando estacionei o carro na beira do lago. Lembrei-me do livro de Eckhart Tolle, “O poder do agora”: nós passamos a maior parte de nossas vidas pensando no passado e fazendo planos para o futuro. Ignoramos ou negamos o presente e adiamos nossas conquistas para algum dia distante, quando conseguiremos tudo o que desejamos e seremos, finalmente, felizes. Mas, se queremos realmente mudar nossas vidas, precisamos começar neste momento. Uma mensagem simples, mas transformadora. Viver no ‘agora’ é o melhor caminho para a felicidade e a iluminação. Assim, fui fazer minha insólita caminhada.

Longe dos problemas e das preocupações iniciei, no sentido horário, em ritmo cadenciado. Uma volta no lago soma 4.200 metros de calçamento com ciclovia. Revigorante é o impacto inicial quando os cantos dos Bem-te-vis dão as boas vindas (pelo menos na entrada que costumo usar, existem mais cinco pontos de acesso) no sinal aconchegante do seu canto de uma nota só. Logo em seguida é possível ver dezenas de capivaras atravessando a pista, tomando sol na grama ou mesmo se banhando no lago. Resolvi fazer uma contagem, porém, parei depois de 50 nos primeiros 500 metros de caminhada, logo depois de uma pequena ponte de madeira: onde as pessoas costumam parar para alimentar os patos e peixes. A beleza no balé aquático dos patos com seus filhotes e até mesmo o grasnar parece música naquele ambiente, saindo de uma pequena mata onde vertem algumas das 200 minas que formam o lago. A fauna tem ali suas variações, incluindo João de Barro, Quero-Quero, Pombas, Pardais, Macacos e antes que você se pergunte, sim, é nesse lago que foram encontradas, em julho, duas onças, perdidas, passeando pela mata que pertence ao exército. Por sorte, elas foram capturadas, enquanto o Lago permanecia fechado. Acho que deveria ter mais placas indicativas com nomes e espécies da fauna e da flora: tem apenas sinalização sobre as capivaras e agora, depois da visita das onças, avisos sobre possível presença de animais silvestres e selvagens. Outro fator que reforçaria melhorar a sinalização, é a visita de turistas. Outro dia, uma turista espanhola me abordou para saber a pronúncia do nome capivara que ela indicava na placa.

Gosto de ver as azaleias esparramadas por todo o lado oeste na beira do lago, dando um colorido especial. Outro espetáculo maravilhoso, porém, em outra estação do ano, é o das cerejeiras que embelezam tanto o lago quanto seu entorno na avenida. São dezenas pela parte principal do lago. Foi uma senhora Sansei que esparramou as sementes dessa árvore adorada no Japão, também conhecida pelo nome de Sakura. Elas floresceram em meados do inverno para embelezar o lago em todas as estações do ano.

Daria para relatar um álbum de fotografias da estética do parque por conta da fauna e da flora, mas não sou especialista e tampouco teria fôlego para descrever essa riqueza. E tem as pessoas que circulam ali, sem contar que o lago serve para atletas olímpicos da canoagem e outras competições que eventualmente são promovidas. O esporte (todos) por si só é de uma energia revigorante e presenciar atletas treinando na pista e no lago é incentivador e, de certa forma nos causa orgulho. E o que dizer da criançada em diferentes momentos? É bonito ver a felicidade delas e suas emoções ao apontarem para uma ave, um peixe, enfim, os olhos brilhando que contagiam quem quer que passe e consiga enxergar essa mesma euforia infantil. Uma vez li um texto que falava das diferenças entre nós ocidentais e os orientais: eles conseguem se emocionar ao olhar para uma flor num jardim qualquer. Nós, apenas achamos bonito o colorido, principalmente na primavera para fotografar o momento sem ao menos vivencia-lo por um instante. Acredito que pelo menos com as crianças isso não seja verdade. É transcendental a emoção que emana delas. Em outras ocasiões, quando um pai está ali empurrando a bicicleta para o filho ou a filha dar as primeiras pedaladas, eles não cabem em si de tanta euforia. Como se tivesse ganho o maior presente do mundo. São coisas que estão em nossa realidade, no dia-a-dia, porém, como adultos que somos, deixamos de vivenciar essa criança que um dia nos habitou.

Sigo observando atentamente as pessoas que me cruzam, outros que me ultrapassam e aqueles que eu consigo, ainda no meu ritmo, passá-los de tão sem pressa que andam. Ainda que pudesse pegar apenas um recorte de conversas, fiz um exercício que me deu muito prazer nesse dia. Foi possível identificar o humor de cada um, a energia, o foco e a variedade de assuntos enquanto caminhavam. Pus-me a imaginar sobre as palavras soltas, quase uma frase das conversas alheias: duas amigas falavam sobre o namorado de uma delas e deu para ouvir que a palavra ‘compromisso’ era a grande preocupação (no meu entender é claro). Eram duas jovens de seus vinte e poucos anos com a silhueta em forma e o semblante sereno, convictas em suas falas. Um casal, seguia lentamente com o filhinho de uns seis anos correndo a frente e pareciam em profunda comunhão. Com voz suave o marido instigava a esposa para uma nova viagem à praia. Mais a frente cruzei com mãe e filha que vinham de bicicleta lado a lado. Me encantei com a beleza dos chapéus e a vestimenta delas que me abduziu para uma cena de filme nos campos da Toscana. Duas senhoras, altivamente no auge da terceira idade, como assim a sociedade fala, iam confabulando viagens, passeios e percebi que elas tinham grande vigor para querer mais da vida. Casal de mãos dadas, apaixonados, olhando para o espetáculo que a natureza oferecia e mesmo em silêncio a harmonia do romance era transparente. Enfim, têm muitas pessoas frequentando o lago durante toda a semana. E nota-se, (graças a Deus), os diferentes estilos, classe, cor, estatura, gostos e ritmos, mas que conjugam um único verbo independente do dia da caminhada: viver o momento. Portanto, desfrutar das coisas mais simples e corriqueiras em nossa vida, com a leveza dos pássaros e absorver a força da natureza que habita lá fora e no ser humano, energiza o nosso olhar para o belo, que na maior parte das vezes fica escondido num canto vazio e sem cor.

O espetáculo que essa caminhada proporcionou não tem comparações, pois a cada passo, cada metro percorrido recebia uma energia fortalecedora. Algumas imagens chegaram a congelar no meu tempo psicológico, pela poesia que sublima o ser. Muitos, até poderiam passar despercebidos, mas a cena era digna de pintura.  Foi logo no início da caminhada, nas primeiras horas do dia: em vários pontos era possível ver aquela maravilha da natureza, protagonizada pelo astro rei. O sol mergulhava no lago e esparramava, na superfície uma luz cintilante criando assim, milhares de estrelas prateadas que borbulhavam, em minha alma, num resplandecer de vida, energia e desejos.

Nesse dia, até mesmo o alongamento feito no final da caminhada pareceu que meu corpo conversava comigo, exaurindo muito mais satisfação do que cansaço, que só poderia agradecer a experiência. Aprendi muito mais nesse dia, pois fiquei mais leve, viajei nas pequenas frases das pessoas que cruzei, dando asas a imaginação e até mesmo brincando com minhas próprias histórias sem precisar sair do lugar. As raras lembranças que tentaram me tirar do foco, foram exortadas para longe. Percebi o quanto é intenso viver e respirar com os olhos do coração.  Precisamos de pouco, assim como as crianças que circulam de sorriso largo e despretensiosas em suas brincadeiras infantis. Nessa caminhada pude realmente observar melhor, enxergar pequenas coisas que estão sempre ali, esperando um aceno nosso, um gesto ou uma interação silenciosa que seja. Estar conectado com a natureza, com total cumplicidade é poder nos remeter para um mundo à parte, de paz de espírito e profunda harmonia. Foi nessa caminhada que consegui reforçar aprendizados importantes: primeiro, o de viver o momento presente em diferentes situações da vida. Lembro-me de uma das dicas de Tolle, quando ele diz, em seu livro, para fazer uma experiência logo ao levantar pela manhã: ao lavar o rosto na pia, tentar escutar o barulho da água, sentir a respiração, massagear as mãos com o sabonete sem pressa e ficar assim absorto nessa ação. A segunda, é que, o mais importante não é chegar ao destino, mas sim curtir a jornada intensamente, pois o final só fará sentido e terá graça se conseguirmos acumular olhares insólitos em nossa caminhada. Depois, poder dizer que se tem algo para contar quando chegar lá, no futuro.

Mario Vicenti

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